A descoberta da maior águia do planeta no Pantanal em meio a uma rota de desmatamento
24/08/2026
(Foto: Reprodução) Harpia gigante é flagrada no pantanal sul-mato-grossense
A descoberta de um ninho de harpia no Pantanal, em Corumbá (MS), em julho de 2025, revelou que a região abriga um casal da maior águia do planeta e também colocou em evidência uma área que hoje é alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF) por possíveis irregularidades na retirada de vegetação.
O ninho foi localizado no Maciço do Urucum após anos de buscas feitas por pesquisadores que monitoram a fauna da região. Desde então, novos registros confirmaram que as aves se reproduzem no local — inclusive com o nascimento de um filhote em outro ninho, registrado em novembro de 2025.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp
LEIA TAMBÉM:
Filhote de maior águia do planeta surge em ninho após meses de mistério e reascende esperança
VÍDEO: cientistas encontram ninho da maior águia do planeta no Pantanal, após mais de uma década
Ao mesmo tempo em que os pesquisadores passaram a acompanhar mais de perto a presença das harpias, o MPF abriu um inquérito civil para investigar autorizações ambientais concedidas para a retirada de vegetação no Maciço do Urucum.
A apuração envolve autorizações emitidas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) em 2023, 2024 e 2025 para empresas de mineração de ferro que atuam na região.
O MPF quer saber, entre outros pontos, se houve autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) antes da liberação estadual, quando essa etapa era exigida pela legislação.
A investigação também considera a existência de ninhos ativos de harpia e a sobreposição entre áreas usadas pelas aves para caça e locais de expansão da atividade minerária.
O que o MPF está investigando
Harpia gigante é flagrada com filhote em ninho no Pantanal.
Icterus Ecoturismo e Planeta Aves/Reprodução
A apuração foi formalizada por meio de uma portaria que determina a abertura do inquérito civil. O documento cita possíveis irregularidades em autorizações concedidas pelo Imasul para a retirada de vegetação no Maciço do Urucum.
Entre os pontos que serão analisados está a necessidade de autorização prévia do Ibama em determinadas áreas de Mata Atlântica.
🔎 A Lei da Mata Atlântica prevê que, em áreas rurais com mais de 50 hectares de vegetação e em determinadas situações previstas pela legislação, é necessária a autorização do Ibama antes da anuência do órgão ambiental estadual.
Por isso, o MPF determinou que o Imasul envie, no prazo de 15 dias, os processos administrativos que serviram de base para as autorizações.
O órgão também deverá explicar tecnicamente por que o conhecimento prévio do Ibama teria sido dispensado e informar se foram realizados estudos para verificar a existência de ninhos de harpia nas áreas autorizadas.
Além do Imasul, são investigadas as empresas LHG Mining Corumbá S/A, Vetria Mineração S.A. e 3A Mining S.A.
O g1 procurou o Imasul para comentar a investigação, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Ninho foi encontrado após anos de buscas
A localização do ninho não foi uma descoberta recente. O registro ocorreu no ano passado, depois de aproximadamente uma década de monitoramento de um casal de harpias que vive no Maciço do Urucum.
A localização confirmou que as aves não apenas passam pela região, mas utilizam o território para reprodução.
Segundo o biólogo Gabriel Oliveira, que participa do monitoramento, o ninho encontrado em julho funcionava como uma espécie de reserva. Meses depois, em novembro, pesquisadores conseguiram registrar pela primeira vez um filhote em outro ninho utilizado pelo casal.
O nascimento foi considerado importante para os estudos porque confirmou a reprodução da espécie no Pantanal e mostrou que a área é usada pelas aves durante diferentes períodos do ciclo reprodutivo.
Harpia é difícil de encontrar
A presença da harpia no Maciço do Urucum já era conhecida pelos pesquisadores, mas encontrar os ninhos é uma tarefa difícil.
A ave tem comportamento recluso e costuma permanecer em áreas de mata pouco acessíveis. A redução da população da espécie no Brasil também fez com que os registros se tornassem cada vez menos frequentes.
Outro obstáculo está no tamanho das árvores escolhidas para a reprodução. As harpias normalmente constroem seus ninhos em árvores gigantes, que podem passar de 40 metros de altura.
Em Corumbá, porém, o ninho foi encontrado em uma árvore mais baixa do que as observadas em algumas regiões da Mata Atlântica e da Amazônia. Mesmo assim, a estrutura fica em uma área de difícil acesso.
Os ninhos são grandes plataformas feitas com galhos e revestidas com vegetação, onde os filhotes ficam protegidos durante os primeiros anos de vida.
Maior águia do planeta depende de grandes áreas de floresta
Filhote de maior águia do planeta é registrado em ninho no Pantanal
Também conhecida como gavião-real, a harpia pode chegar a cerca de 2,20 metros de envergadura. A espécie é classificada como "quase ameaçada" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Para sobreviver, a ave precisa de grandes áreas contínuas de floresta. Segundo Gabriel Oliveira, o território utilizado por um casal pode variar de 20 a 35 quilômetros quadrados.
É justamente essa dependência de áreas preservadas que faz da harpia uma espécie considerada importante para a conservação das florestas tropicais.
Como predadora, ela também ajuda a controlar populações de animais que vivem nas árvores e participa do equilíbrio do ecossistema.
Reprodução é lenta
A reprodução da harpia também contribui para a vulnerabilidade da espécie.
A fêmea costuma colocar dois ovos, mas geralmente apenas um filhote sobrevive. A incubação dura cerca de 56 dias e, depois de nascer, o filhote pode permanecer dependente dos pais por até dois anos.
Como os pais investem um longo período na criação de cada filhote, o intervalo entre uma reprodução e outra pode chegar a aproximadamente três anos.
Na caça, a harpia costuma esperar por longos períodos em pontos estratégicos até encontrar o momento certo para atacar. A ave também consegue voar com agilidade entre os galhos das árvores, o que facilita a captura das presas.
Por isso, a preservação de grandes áreas de mata é fundamental para que a espécie consiga encontrar alimento, construir seus ninhos e se reproduzir.
No Maciço do Urucum, a presença de ninhos ativos mostra que a região não é apenas uma área de passagem para a harpia, mas parte do território necessário para a sobrevivência e reprodução do casal monitorado pelos pesquisadores.